Agnaldo Cardoso – NEAM – Olinda / PE - Contato: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

É doloroso admitir, mas o preconceito está presente em toda sociedade, nos relacionamentos, no ambiente de trabalho, entre os “amigos” e inclusive nos meios religiosos. Ele já começa a aparecer quando falamos que a pomba branca é da paz e a galinha preta é da macumba!

Mas o que é o preconceito? Segundo os dicionaristas, o preconceito é uma opinião que é formada antecipadamente, sem um mínimo de ponderação ou conhecimento dos fatos. Em outras palavras, preconceito é uma ideia preconcebida, que leva o preconceituoso a ter aversão e intolerância em relação à outras raças, religiões, pessoas, situações e por aí vai.


O preconceito é aquela erva daninha que trava o nosso raciocínio e nos impede de ter uma visão mais clara da realidade. Pensar e refletir sobre o significado do preconceito e as situações em que ele pode aparecer, é de vital importância para nosso aprendizado na vida.

E o Espiritismo, como lida com o preconceito? Como a Doutrina Espírita aborda a questão das diferenças e o que esperar daqueles que abraçam a Codificação?

A Doutrina Espírita nos esclarece que, antes de sermos homens ou mulheres, brancos ou negros, americanos ou brasileiros, ricos ou pobres, somos espíritos, criados por Deus, simples e ignorantes e cuja missão é evoluir, aprendendo a usar o livre-arbítrio com inteligência e responsabilidade, além de desenvolver outros valores. A isto se dá o nome de reforma íntima.

E nós? Como bons espíritas que somos? Nós estamos fazendo a nossa parte? Nunca humilhamos ou não demos o valor devido a qualquer pessoa, por conta da sua religião, opção sexual, sua cor ou por ter uma profissão mais humilde?

Ou estamos entre aqueles que se arvoram de censores da vida alheia, detentores por certo, de ilibada reputação moral e impressionante elevação espiritual, que pensam da forma como eu disse no início e em um grau tão alto de atitude preconceituosa, que chegamos a pensar mesmo, que não se trata de preconceito, mas necessidade de preservar a pureza doutrinária? É assim que nós temos agido?

Entretanto, é possível que algum ingênuo irmão espírita, acredite que realmente não existe nenhum preconceito nas Casas Espíritas! Mas existe. Existe sim e ele se torna extremamente perigoso, exatamente pelo fato de nunca ser demonstrado às claras. Mas se prestarmos bastante atenção, o preconceito está sempre se revelando nos cochichos que alguns prezados irmãos insistem e são mestres em sussurrar em ouvidos ávidos por fofocas fluídicas.

Mas que fique claro: O Espiritismo e as Casas Espíritas, não têm nada a ver com preconceitos. Absolutamente nada! Pois o problema não está no Espiritismo ou nas Casas Espíritas, ele está nos espíritas! Evidentemente que se perguntarmos aos espíritas se há alguém que tenha algum tipo de preconceito em relação a outro trabalhador da Casa, por ele ser isso ou aquilo, eu não tenho dúvida que dificilmente aparecerá alguém para assumir.

A raiz do preconceito está na falsa crença de que somos melhores que os outros. Pensamos desta forma porque ainda somos movidos e envolvidos pelos dois cânceres morais da humanidade: O orgulho e o egoísmo, e é só com o autoconhecimento e trabalho em prol dos outros que poderemos minimizar esses sentimentos tão pequenos. Por vezes, eles se manifestam em pensamentos, na fala, em gestos ou em ações concretas e discriminatórias.

Os princípios doutrinários, codificados por Allan Kardec, fornecem elementos substanciais para a nossa transformação moral, intelectual e espiritual. Valendo-nos dos ensinamentos veiculados em suas obras básicas e complementares, conseguiremos alicerçar a nossa fé na razão e dessa forma os preconceitos são reduzidos ao mínimo possível, permanecendo apenas aqueles próprios da nossa ignorância e da nossa recusa em aceitar os fundamentos doutrinários.

Não podemos esquecer que poderemos reencarnar na posição daqueles que discriminamos anteriormente, sofrendo na própria pele o preconceito que causamos aos outros. É possível encontrar em inúmeras obras espíritas, casos que retratam exemplos nesse sentido. A partir da compreensão desses fatos, muitas desavenças poderiam ser evitadas.

O preconceito é uma praga que se alastra nas sociedades e vai deixando um rastro de prejuízos, tanto físicos como morais. Por vezes, ele surge como defensor da religião, espalhando a discórdia, a maldade, o sectarismo e os ódios sem precedentes. Outras vezes apresenta-se em nome da preservação da raça, gerando abismos intransponíveis entre os filhos de Deus, fortalecendo o egoísmo, o orgulho, a inveja e o despeito.

E de todos os preconceitos, o religioso é o mais incoerente e absurdo. Despreza-se uma pessoa porque ela professa uma religião diferente da nossa. Quantos perderam a vida em nome de um preconceito absurdo onde se pretendeu afirmar a supremacia de uma religião à outra com um processo tirânico e totalmente contrário ao Cristianismo? E o que dizer das Cruzadas em nome de Deus? Das mortes nas fogueiras? Das perseguições sanguinárias àqueles que eram acusados de heresia? E os primeiros cristãos, perseguidos e caçados para morrerem no circo, devorados por leões?

O próprio Espiritismo foi perseguido pelo preconceito; taxado de demoníaco até há bem pouco tempo. Ainda hoje percebemos que há muita desinformação geradora de preconceitos por parte de pessoas que se põem a falar mal sem o menor conhecimento de causa.

Logo, pergunta-se: o que fazer? Para responder essa questão, surge outra dúvida: quando os preconceitos humanos são realmente maléficos para a religião?

Acredito que o grande problema é que não existe um meio termo. Para a maioria, a religião define o modo de ser do seu seguidor, suas atitudes. E isto por mais que esteja enraizado em nossa sociedade, não passe de puro preconceito. Julga-se a pessoa e julga também a sua religião.

Uns mais, outros menos, todos acreditam que sua religião é que é a verdadeira, a única que tem ligação direta com o Criador e, nesse caso, a única em que os fiéis terão direito a estar ao lado de Deus, depois da morte ou mesmo após o fim dos tempos, como muitos acreditam.

Estejamos nós onde estivermos, nessa ou naquela religião, o importante é que o nosso coração se abra para que entre nele algo tão grande que fará com que não vejamos mais diferenças, que possamos acolher todos, sejam eles judeus, católicos, muçulmanos, evangélicos, espíritas, hindus, budistas, umbandistas, candomblecistas, testemunhas de Jeová, xamanistas e até aos que não professam nenhuma religião.

No caso do Espiritismo, um preconceito que ainda existe e nunca deveria ter existido é quanto aos espíritos que nós recebemos em nossas reuniões mediúnicas. Eu mesmo, na condição de dirigente de um grupo de psicofonia, já fui obrigado a chamar a atenção de médiuns – homens – que evitavam incorporar homossexuais ou mulheres, por receio de virar alvo de piadas de alguns colegas.

E quanto aos preto-velhos? A literatura espírita relata que há casos de dirigentes que não aceitam a manifestação desses irmãos e chegam ao ponto de determinar que o médium corte a comunicação, mandando que “o espírito procure um terreiro, porque ali não é lugar para ele”, e isso independente do que o espírito pretende.

Então, não é mais o conteúdo da sua comunicação, o seu problema, a sua dor ou sua dúvida que interessam? O que interessa é sua origem? Sua cor? Sua forma de falar? Mas Kardec não ensina que devemos inicialmente avaliar as mensagens, para verificar o que o ele pretende? Kardec não ensina que a melhor forma de identificar um espírito, é analisando o conteúdo das suas comunicações? E fazemos isso mandando-o embora, ao invés de ouvi-lo?

Alguns irmãos espíritas já me perguntaram:

─Agnaldo, por que ele se apresenta como Pai fulano? Como um preto-velho? E por que é que ele tem de falar daquela forma?

Na verdade, muitos espíritos de brancos, idosos, ao invés da simplicidade de serem chamados de Pai, preferem se apresentar como... Doutores! E quanto ao falar daquela forma, seria interessante que as pessoas também questionassem: Por que os Espíritos do Dr. Fritz e da Irmã Sheilla, dois indiscutíveis trabalhadores do bem se expressam num português arrastado, com sotaque alemão?

─ Ah, Agnaldo, mas eles na última encarnação eram alemães! Eram europeus!  Responderam-me.

Ora, sendo assim, os brancos europeus podem se expressar com sotaques estrangeiros como faziam na última encarnação, mas os preto-velhos não podem? Ou seja: Eles continuam sofrendo, no Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, agora como espíritos, a mesma exclusão que sofreram quando estavam aqui encarnados? Mas foi isso o que aprendemos com Kardec? Ou aprendemos que o Espiritismo, não veio para diferenciar os Espíritos pela posição social, cultural, cor da pele ou linguajar típico e sim pelos caracteres morais?

Haveria até alguma lógica argumentativa nesse radicalismo, se um desses irmãos, negro, aparentemente inculto, ignorante, ainda preso às lembranças da sua última encarnação, não pudesse nos passar lições maravilhosas de amor, caridade, humildade e até mesmo pedir nossa permissão para assistir nossas reuniões, para estudar e aprender conosco, como estamos cansados de ver acontecer.

Por outro lado, eu já perdi a conta das vezes que presenciei e conversei com espíritos que se diziam doutores, brancos, esbanjando cultura, que chegam carregados de intenções maléficas. Uns evoluíram moralmente, outros intelectualmente. E o contrário também acontece. Independente de cor ou forma de falar! E a nossa obrigação, sempre, é ouvir a todos.

Quero enfatizar um grande erro cometidos por muitos confrades espíritas. É a sua crença absoluta em tudo o que os espíritos dizem, como se os espíritos fossem os donos de verdade. Se aparece um espírito que se diz médico e passar uma receita, há espíritas que tomam o remédio, sem analisar o conteúdo da mensagem do espírito, sem analisar o próprio remédio e o pior: nem sabe ao certo se está mesmo doente! Se aparece um espírito que diz ser um preto-velho, com a voz macia, aparentando humildade e diz que é o guardião da pessoa, esta pessoa, desprezando o “passar tudo pelo crivo da razão”, passa a submeter-se a tudo o que o espírito diz.

Ou seja, há um equivocado endeusamento desse tipo de espíritos, esquecendo-se que os dois, que aparentam ser um médico e um preto-velho, podem sim, ser dois grandes charlatões, dois grandes mistificadores! Mas como ter certeza sem ouvi-los atentamente e saber o que pretendem?

Que fique bem claro: Quando falo das manifestações dos preto-velhos, não estou defendendo sua evocação, o uso de fumo, bebida, vela, etc. Muito menos os rituais que os terreiros costumam adotar. Estou falando que devemos ouvi-los, como a qualquer outro espírito, respeitando a forma como eles se expressam, independente de qualquer coisa. Apenas após serem ouvidos é que decidimos como fazer para melhor ajudá-los, até porque se estão podendo se comunicar, foi porque a equipe espiritual que dirige os trabalhos mediúnicos, permitiu!

Ora, se a equipe espiritual é quem seleciona os espíritos que irão se comunicar em nossas reuniões, quando eles se apresentarem, nós iremos fazer uma seleção da seleção? Com que autoridade moral nós podemos dizer que espírito A ou espírito B pode ou não se comunicar? Falar do seu problema? Pedir socorro? Desabafar? Quem de nós pode atirar a primeira pedra?

─Mas pode ser um espírito charlatão, mistificador, se passando por um preto-velho! Pode alguém estar pensando.

É verdade, já dissemos isso e acontece mesmo. Mas também acontece de chegar um espírito charlatão, mistificador, tentando se passar por um filósofo, um cientista ou um espírito muito evoluído. Ao invés de um preto-velho, passar-se por um “branco-velho”. E se for um espírito se passando por quem quer que seja? E daí? Branco, preto, vermelho, amarelo, etc.? Inclusive ameaçando nos agredir? Mandamos embora?

Não!Ao contrário! Irmãos assim, agressivos, ameaçadores, mistificadores, etc., são os que mais precisam de nossa ajuda e não será enxotando-os para longe das nossas reuniões mediúnicas ou da nossa Casa Espírita, que estaremos lhes estendendo a mão. Na realidade, estaremos expulsando-os do local que tem obrigação moral de ampará-los e ajudá-los!

Contudo, que fique bem claro, que mesmo com todo o respeito que eu demonstro por qualquer espírito, inclusive os preto-velhos e por qualquer religião, inclusive pela Umbanda séria, o roteiro, o único e maravilhoso roteiro que norteia meu trabalho na Casa Espírita que me abriga e os livros que tenho publicado, foi escrito por Allan Kardec, e é ele, Allan Kardec, que ensina com todas as letras a abrirmos nossos braços para acolhermos e ajudarmos em nossas reuniões mediúnicas, a todos os espíritos que nos procurarem, independente da sua evolução, cor, linguajar, origem, sexo e até independente das suas boas ou más intenções. Não agindo assim, seremos pessoas tristemente... Preconceituosas!

E infelizmente, até nossos irmãos espíritas que em algum momento das suas vidas optaram por trilhar caminhos perigosos e que depois, conscientes da opção errada, tentam voltar para o seio da Doutrina Espírita, muitas vezes têm suas pretensões negadas, por companheiros irredutíveis que não os aceita com a alegria que deveria existir e ficam criando dificuldades para seu retorno.

O que fazer? O primeiro passo para lutar contra os preconceitos, é reconhecer a sua existência. Não é tão fácil, mas se concordamos que todos os homens são irmãos, independente do momento e situação que cada um vive e que é preciso superar os preconceitos, nós iremos perceber que existem na nossa Casa Espírita, irmãos excluídos, à nossa volta, que estão gritando em silêncio por socorro, e nós permanecemos surdos em função dos nossos preconceitos. Assim, está em nossas mãos a oportunidade de começarmos a lutar, para que não existam mais pessoas excluídas ao nosso lado. Pelo menos, na nossa Casa Espírita! Muita paz para todos!

 

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