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“Fora da caridade não há salvação”

Era 1974, quando conheci aos poucos o Cel. Amantéa trabalhava eu como secretária no Jornal Periscópio e todas as semanas, aquele senhor, falante e convicto de suas posições, vinha até a redação no Largo do Carmo, entregar sua matéria semanal.

José Carlos Rodrigues de Arruda, diretor do jornal, concedia-lhe um espaço para que publicasse gratuitamente seus artigos sobre Doutrina Espírita, na época, pouco difundida e até mesmo hostilizada em Itu, cidade tradicionalmente católica.

O que eu ouvia daquele senhor, era para mim um assunto completamente desconhecido, mas já sentia a força com que ele expunha a Doutrina e sempre com tranquilidade, segurança, inspirando-me no mínimo, curiosidade.

Demorei muito para iniciar as leituras dos livros de Alan Kardec, mas não tenho dúvida: foi aos dezenove anos, em 1974, que a semente começou a ser plantada em meu coração. Cel. Fiori Amantéa nasceu em Taquaritinga, aos 16 de janeiro de 1908. Militar, foi transferido de Tupã, para o 2º Regimento de Obuses 105, o então quartel de Itu, em 1948, vindo com a esposa, Sra. Valéria Tabachi Amantéa e três de seus filhos, Ciro, Newton e Nelson (falecido), sendo que um deles, José do Carmo, viria mais tarde, por adoção. Segundo relatos de seu filho Ciro, ele dizia ter Fiori Marcelo Amantéa “Fora da caridade, não há salvação” 68 ITU: presenças ilustres sido alertado pelo seu “guia” que iria para uma “terra estranha”, (leia-se “estranha” no sentido de “diferente”).

Este termo tinha a ver com a natureza nitidamente católica da cidade e isto ele só entendeu após a mudança. Amantéa, no entanto, respeitava isto e nunca criticou nenhuma religião, mesmo tendo conhecimento de que não era bem visto por muitos, após fundar um Centro Espírita na cidade.

Ele conheceu o Espiritismo no Rio de Janeiro, na Sociedade Espírita “Cabana de Antonio de Aquino” e percebeu que poderia, em Itu, pôr em prática sua ideia de fundar uma Instituição Espírita, como antes já havia feito de forma temporária em Tupã.

Assim nasceu a “Cabaninha Antonio de Aquino”, dedicada ao desenvolvimento e prática da mediunidade psicográfica e assistência caridosa. Ainda nos relatos de seu filho Ciro, ele costumava dizer que “Religião não salva ninguém; se alguma coisa nos salva são os atos que praticamos”.

Caridoso sempre, ele mantinha na Rua Santa Rita o Orfanato “Lar de Jesus - O Sol dos Sóis”, onde as crianças abandonadas eram acolhidas com carinho por ele e sua esposa, sendo cuidadas com a ajuda de voluntários. Dona Valéria, (nascida em Taquaritinga, SP, aos 28 de maio de 1913), “foi o sustentáculo das realizações de meu pai em Itu”, disse carinhosamente, seu filho José do Carmo, “tendo sido a mantenedora da campanha “enxoval dos pobres”, para a qual produzia e organizava esses enxovais, com sacrifício de suas horas de descanso; campanha que continua até hoje, sessenta e sete anos depois”.

Em época de Natal, era conhecida na cidade, a luta do Cel. Amantéa para dar às crianças carentes um brinquedo, a fim de que também tivessem direito a essa alegria. Seus filhos, ainda pequenos, faziam a distribuição dos panfletos do “Natal dos Pobres”. As enormes filas defronte ao Orfanato no dia de Natal eram motivo de alegria para o seu coração. Ao lado, funcionava a “Cabaninha Antonio de Aquino”, a casa espírita fundada por ele com a ajuda de colaboradores em 25 de dezembro de 1948 e que até hoje é mantida na cidade, com Fiori Marcelo Amantéa 69 objetivo do estudo e divulgação da doutrina espírita, através de palestras e atendimento às pessoas necessitadas de auxílio material e espiritual.

Mais tarde, às suas expensas, foi construída no fundo de sua casa (na Rua Santa Rita, 1471), a primeira sede da Cabaninha e depois a sede com frente para a Rua Benjamin Constant. José do Carmo enfatiza: - “o pai reservava uma porção do seu soldo para a manutenção de suas atividades doutrinárias e de assistência social.

Mas, é por justiça que ressalto que o povo ituano colaborou muito com a Cabaninha, desde o seu início.” Cel. Amantéa foi também maçom, tendo frequentado a loja de Itu por algum tempo. “Além de militar e espírita atuante, era um homem forte, esportista, principalmente da natação”, relatou seu filho Ciro.

Consta em algumas publicações pesquisadas, que ele foi o primeiro a atravessar, a nado, o rio Sorocaba, no final da década de 40.

Frequentava diariamente a piscina da Associação Atlética Ituana e no Regimento Deodoro foi responsável pelo Departamento Esportivo durante sete anos. José do Carmo, contou-nos que o Cel. Amantéa fez o Curso de Educação Física, na Escola de Educação Física do Exército e por esse motivo sempre defendeu o esporte, principalmente a natação, como um dos caminhos para a manutenção da boa saúde e do afastamento dos jovens das drogas.

Ele fazia anualmente uma campanha antidrogas com apoio do esporte, ao nadar cinco mil metros, nos dias de aniversário da cidade (2 de fevereiro), em uma raia da piscina da Associação Atlética Ituana, especialmente reservada para ele.

Ele deixou a carreira militar, onde poderia ter progredido, em prol de suas atividades no Espiritismo e na caridade.

Nos anos 80, o então vereador Inaldo Lepsch propôs e a Câmara Municipal aprovou, o titulo de Cidadania Ituana, ao casal Fiori Marcelo e Valéria. Em 1995, aos oitenta e sete anos de idade, faleceu em Itu, ou desencarnou (como ele certamente gostaria 70 ITU: presenças ilustres que disséssemos), este espírito bondoso, que amou a cidade e nela plantou tantas sementes do bem, deixando em muitos corações, sentimentos sinceros de gratidão. Em vida, ele enaltecia a ajuda da esposa dedicada em todas as suas conversas com amigos, creditando a ela os méritos pelo trabalho desenvolvido; ela, que mesmo tendo contraído câncer em 1963, doença que permaneceu até a sua morte, era quem cuidava das crianças do orfanato, quem distribuía parte das refeições diárias de sua família para os pedintes no portão da sua casa.

Após o falecimento do Cel. Amantéa, d. Valéria, com a ajuda do filho Ciro continuou a conduzir o orfanato, até a sua morte em 1996, aos oitenta e três anos. Com as palavras de seu filho José do Carmo, fechamos o perfil do Cel. Amantéa, narrando parte do início de seu caminho neste mundo: “O espírito de iniciativa e de empreendedor, penso eu, começou com o fato do meu pai ter fugido de casa, ainda adolescente, para evitar, o que era costume na época, ficar na lavoura com a família.

Queria estudar e ser alguém. Foi para o Rio de Janeiro e passou fome até encontrar seu irmão, com quem se tornou pintor, pintando os primeiros arranha-céus da cidade. Já na idade do Serviço Militar, foi acolhido por um salva-vidas seu amigo, o “Índio”, como era conhecido, que o iniciou nessa atividade, até entrar para o Exército como sodado e, posteriormente, cursar a Escola de Intendência do Exército, seu passaporte para o oficialato. Foi designado para servir em Natal, RN, por ocasião da 2ª. Guerra Mundial, nos Batalhões de Suprimento das Forças Brasileiras enviadas à Itália. Por lá ficou dois anos, até o final da Guerra.

Foi católico e voltou espírita. O Livro dos Espíritos, presente do seu irmão Miguel Amantéa, que ele jogara ao sair, no fundo da mala para esquecer, pois era católico fervoroso, foi o seu lenitivo e bússola para a sua conversão, naquela situação desesperadora de intenso trabalho e afastamento dos amigos e da família.” Fiori Marcelo Amantéa 71 Rua Coronel Fiori Marcelo Amantéa, Portal do Éden, Itu e Complexo Aquático “Cel. Fiori Marcelo Amantéa”, anexo ao estádio “Novelli Junior”, assim a cidade de Itu prestou homenagens a esta “Presença Ilustre”. Acadêmica Maria

Itu Presenças Ilustres 3
Aparecida Thomaz Alves Cadeira nº 08

 

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