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Domingo, 16 Agosto 2020 18:37

Implicações da desencarnação coletiva.




Fonte :
Letra Espírita 
Por: Andresa Küster e Rodrigo Oliveira
Imagem: Pixabay

O ser humano teme a morte do corpo físico, ainda que esta seja considerada a principal certeza de nossa existência terrena.

Sob o ponto de vista individual, sabemos que a desencarnação implica em uma ruptura do convívio entre as pessoas que mantêm vínculos afetivos no plano material. Além disso, a ideia de que, após a morte do corpo físico, o indivíduo será cobrado pelas suas faltas é um conceito comum a diversas doutrinas religiosas. Esses dois pontos já seriam suficientes para explicar a dor e o temor que tomam conta da sociedade diante de eventos de desencarnação coletiva.

Na obra “Estudando André Luiz – A Desencarnação”, os autores lembram que o ciclo da vida eterna, conforme apresentado na codificação da Doutrina Espírita, implica na necessidade de que passemos por períodos em que estejamos encarnados, para que possamos vivenciar os desafios que nos são impostos pela vida na matéria. Todavia, o momento da morte do corpo físico não representa um ponto final, mas o início de um processo de reencontro com a própria consciência no plano espiritual, livre das distrações terrenas:

“Por tudo isso, a morte que nos parece mais justa não é a que não responsabiliza o ser nem a que o responsabiliza pela eternidade, mas sim a que o permite voltar para reparar o mal realizado. Dar oportunidade de reparação é retornar à carne a fim de dar continuidade ao aperfeiçoamento individual. Mas é preciso morrer para se encontrar com a própria consciência? Não! O grande obstáculo são as distrações que nos hipnotizam, dadas pela predominância de nosso interesse pela matéria e pelo desinteresse pelo espírito, priorizamos o efêmero em detrimento do eterno. Por isso, o defrontar-se mais comum com a própria consciência se dá pelo fenômeno da morte, que além de providenciar esse encontro, promove a oportunidade de vivenciar novas circunstâncias devido a novos contextos de corpo, família, classe social, etc.” (MONTEIRO, ROVAI, 2016, p. 29-30)

A Doutrina Espírita nos convida a enxergar a vida como um processo contínuo que envolve períodos de vida material, intercalados com períodos de tratamento e estudo no plano espiritual. As alternâncias entre estes dois planos são marcadas por dois eventos particularmente relevantes para os seres humanos, o nascimento e a morte. O Capítulo VII de “O Livro dos Espíritos”, ao tratar do retorno à vida corporal, explica que os dois momentos representam períodos de perturbação para o espírito:

“Assim como a morte do corpo é uma espécie de renascimento para o Espírito, a reencarnação é para ele uma espécie de morte, ou, antes, de exílio e de clausura. Ele deixa o mundo dos Espíritos pelo mundo corporal, como o homem deixa o mundo corporal pelo mundo dos Espíritos. O Espírito sabe que reencarnará, como o homem sabe que morrerá; mas, como este, o Espírito só tem consciência disso no último momento, quando é chegada a sua hora. Então, nesse momento supremo, a perturbação se apodera dele – como no homem que está em agonia -, e essa perturbação persiste até que a nova existência esteja nitidamente formada.” (Kardec, 2018, p. 142).

Assim, a existência atual no plano físico é considerada um período passageiro, entre muitos outros, mas a transição não é tarefa fácil, ainda que necessária. Durante os períodos de vida material, os seres humanos são colocados em situações nas quais cada um tem o livre arbítrio, para tomar decisões que resultam em consequências para si e para as pessoas com quem convive. Todavia, o fato de que a atual vida física é um período curto e passageiro não implica em sua desvalorização, pois os ensinamentos dos Benfeitores Espirituais indicam que cada um destes períodos é uma oportunidade valiosa para o aprimoramento individual. O que se recomenda é a busca pelo equilíbrio dos sentimentos que afloram durante os acontecimentos que marcam os períodos de transição.

A morte do corpo físico é abordada no capítulo VI de “O Livro dos Espíritos” que trata da chamada “Lei de Destruição”. A recomendação de que a vida na matéria seja devidamente valorizada está explícita na resposta à questão 730 que aborda o temor instintivo com que os seres humanos veem a morte:

“- Já dissemos que o homem deve procurar prolongar sua vida para cumprir sua tarefa. Foi por isso que Deus lhe deu o instinto de conservação, que o sustenta nas provações. Sem isso, ele se entregaria muito frequentemente ao desânimo. A voz secreta que o faz repelir a morte lhe diz que ele ainda pode fazer algo pelo seu adiamento. Quando um perigo o ameaça, é uma advertência para que aproveite a moratória que Deus lhe concede; na maioria das vezes, porém, o ingrato rende mais graças à sua estrela que ao seu Criador.” (KARDEC, 2018, p.241).

Na conclusão do Capítulo VI, a resposta à questão 740 de “O Livro dos Espíritos” aborda o papel dos grandes flagelos como provações morais:

“- Os flagelos são provações que dão ao homem a oportunidade de exercer sua inteligência, demonstrar sua paciência e resignação ante a vontade de Deus, tornando-o capaz de manifestar seus sentimentos de abnegação, de generosidade e de amor ao próximo, se ele não for dominado pelo egoísmo.” (KARDEC, 2018, p.243).

Na literatura produzida por autores espíritas, várias obras descrevem as desencarnações coletivas como ocasiões nas quais espíritos, possuidores de débitos similares em vidas anteriores, são colocados em uma situação na qual deixam a terra em um grupo, que terá tratamento adequado no plano espiritual. Neste sentido, a desencarnação coletiva é considerada uma forma de expiação das faltas. Além disso, nas situações em que ocorre a desencarnação de um grande grupo de pessoas, há apelo junto aos meios de comunicação, que noticiam os fatos e geram impacto sobre a sociedade. Ao tomar conhecimento das histórias das vítimas e dos detalhes que levaram ao evento, as pessoas podem se comover e refletir sobre a efemeridade da própria vida física. Assim percebe-se que tais eventos dolorosos representam ferramentas de aprendizado, tanto para os diretamente envolvidos quanto para a sociedade como um todo. Percebe-se ainda, na resposta à questão 740, que os Benfeitores Espirituais não minimizam o papel dos flagelos como provações com que os seres humanos se deparam. A resposta busca apresentar o papel didático que as ocorrências representam, ainda que estejam, compreensivelmente, vinculadas a um contexto de dor e temor. Ao tratar das dores representadas pela morte do corpo físico na obra “Estudando André Luiz – A Desencarnação”, os autores explicam por que ainda precisamos que a dor represente um papel determinante no processo de aprendizado:

“A Doutrina Espírita não prega a dor como solução, ao contrário, bom seria que nossos aprendizados fossem, em sua maioria, através do santo amor, que sempre nos guarda a salvo de dores maiores se soubermos agir em conformidade com a Lei de Deus, que é sempre o rumo da nossa felicidade. Mas, convenhamos, somos rebeldes, e quase sempre preferimos bater cabeça, insistir em um ponto que já vimos dar errado e por isso a não menos santa dor nos vem fazer recordar de que precisamos deixar a infantilidade e crescer.” (MONTEIRO, ROVAI, 2016, p. 74)

Sob o ponto de vista individual, a morte do corpo físico representa o fechamento de um ciclo, com o retorno do espírito ao plano espiritual e a possibilidade de reencontro com espíritos com os quais tenha afinidade construída durante as encarnações. Por outro lado, gera dor ao representar o final do período na matéria e provoca aflição, devido ao rompimento dos vínculos materiais com o encerramento do convívio terreno com parentes e amigos que ficam. Quando ocorrem eventos de desencarnação coletiva, somos naturalmente provocados a demonstrar solidariedade às diversas famílias que, ao mesmo tempo, em um evento único, perdem a possibilidade de estar convivendo cotidianamente com seus entes queridos no plano físico.

Quando comparamos o atual período com os eventos que estão descritos nos livros que ilustram os dois últimos séculos, XIX e XX, percebemos que no atual período, com as facilidades de acesso à informação decorrentes dos avanços tecnológicos, as arbitrariedades e as agressões físicas injustificáveis geram cada vez maior repulsa da sociedade. Ao mesmo tempo, as calamidades e as tragédias, que implicam em desencarnações coletivas, geram maior empatia e, em muitos casos, contribuem para que ocorra uma reflexão a nível global sobre as dificuldades que caracterizam a vida terrena.


KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Matheus Rodrigues de Camargo, 1ª ed. 22ª reimpressão. Capivari-SP: Editora EME, 2018a.

MONTEIRO, Saulo; ROVAI, Juliane(orgs). Estudando André Luiz – Vol. 1 - A Desencarnação. 1ª ed. Rio de Janeiro: CELD, 2016.

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